"A geometria se anima, a matéria reconquista a vida, o objeto desafia, conquista o espaço, propõe novos equilíbrios e ritmos, cria significados novos, que o artista desdobra no seu processo criativo, denso de poesia."

Márcio Sampaio, crítico de arte.

O ARTISTA

Ricardo Carvão Levy

O artista plástico Ricardo Carvão Levy compõe a própria obra como espelho da vida. A inspiração pode vir do entorno, de formas orgânicas da natureza ou ainda dos materiais que segue encontrando, transformando em escultura e instalando em sua "casa-ateliê-galeria" onde forma um mundo à parte. "Minha intenção sempre foi criar algo que perpassasse por um processo de uma vida inteira. Esta é minha grande obra."

Ele iniciou um ciclo de descobertas, autoconhecimento e busca de identidade para as criações que seguiu em silêncio por anos até culminar no reconhecimento do trabalho. A produção chamou atenção de críticos, como o mineiro Márcio Sampaio,que o convidou a realizar uma exposição individual em 1979, no Palácio das Artes. Daí em diante sua trajetória passou a se confundir com a produção escultórica contemporânea em Minas e no país, com obras monumentais e inserções no mercado de arte.


O que chama atenção na criação visual de Ricardo Carvão Levy é a maneira como consegue, diante da multiplicidade de técnicas, linguagens e materiais empregados, ainda assim manter a identidade plástica e a potência das obras. "Respeito quem segue a mesma linha a vida inteira, mas, para mim, acho interessante é não cristalizar. Se existe uma ligação em tudo o que faço é o amor que tenho pela vida e pela arte."

Diante do desafio de se reinventar a cada trabalho é que foi criando as séries, desde o início, em 1972, ao surgir com o "ciclo do couro", quando utilizou o material para realizar mandalas ou círculos até em desdobramentos da pesquisa, instante em que passou pelas séries batizadas de cubismo - inspiradas na forma dos cubos -; no tubismo - com referências nos tubos -, ou na produção de dípticos e trípicos da série lúdica, cujas novas leituras nascem também dos posicionamentos das peças. Assim como nesta série em que, a cada ângulo, surgem possibilidades para o olhar, Ricardo Carvão Levy, segue buscando, a cada criação, maneiras de mudar o mundo a partir da forma. E por onde passa, deixa marcas pelo caminho.


TRAJETÓRIA


Ricardo Carvão Levy nasceu em 1949, em Belém do Pará e, desde cedo, entrou em contato com as influências das artes pré-colombianas: marajoara e tapajônica. Ao mudar-se com a família para Belo Horizonte, em 1964, iniciou carreira como artista e foi, nos anos 1970, após viagem ao México, que voltou a se aproximar da arte pré-colombiana, pela qual se sentiu profundamente tocado. Seu caminho profissional, desde então, passou a ser a pesquisa tridimensional.

O processo criativo, num primeiro momento, partiu de um rigoroso recolhimento em torno dos preceitos geométricos e matemáticos, momento no qual surgiram obras utilizando a sola de couro, procurando enaltecer o material inapto e inóspito. A fase do couro encerrou-se em 1979, quando, após experimentos, adotou o aço como principal matéria-prima. O construtivismo, movimento artístico baseado na valorização da construção da obra de arte em oposição à composição,  guiou e inspirou a sua produção coincidindo com a inclusão na feitura das esculturas de materiais como o cobre, papel, madeira e o vidro.

Ao se colocar numa posição diferente às regras estabelecidas, inclusive por ele mesmo, e se abrir para possibilidades que tem encontrado no percurso artístico, Ricardo Carvão Levy tem buscado sempre se reinventar. O que o guia é a construção e a desconstrução das formas e a constante variação dos materiais, técnicas e acabamentos. O resultado é um trabalho que, mesmo apresentando leituras múltiplas do tridimensional, guarda uma forte identidade simbolizada pela exploração das possibilidades estéticas, simbólicas e até lúdicas da escultura. É como se, a partir de outras percepções, somado ao seu discurso criativo, ele conseguisse manter viva a própria arte.


A criação

A obra de Ricardo Carvão Levy acontece em dimensões distintas: no ambiente íntimo ou no espaço público. Ao utilizar objetos do cotidiano e ao se apropriar do próprio apartamento como se fosse uma galeria íntima, o artista compõe uma espécie de "ninho" criativo onde deposita, dia após dia, nas paredes, nos móveis, no chão, nos jardins, um caleidoscópio de possibilidades, formas, pesquisas, muitas vezes feitas com objetos cotidianos, que, por si só, se analisadas num conjunto, são como uma grande obra de arte. Quase como um site specifc particular, um oásis criativo repleto de esculturas de todas as dimensões e materiais, onde poucos têm o privilégio de acessar. Em suas mãos, latas, pedaços de metal e os mais diversos utilitários transformam-se em esculturas inspiradas em formas orgânicas da natureza.

A produção adquire outra conotação quando deixa o ambiente íntimo para ganhar a dimensão do espaço público e do mercado de arte estabelecendo conexões com galerias, colecionadores, marchands e museus. É quando a obra deixa a sua zona de conforto para ganhar a dimensão do olhar do outro. As esculturas públicas são exemplos. Ricardo Carvão Levy tem esculturas monumentais importantes em capitais como Belo Horizonte, São Paulo e em cidades como Nova Lima. Na capital mineira, duas delas viraram marcos e referências da cultura local, como o "Monumento à Paz", na Praça do Papa, e o "Monumento do Milênio", no Bairro Belvedere.


O fundamental se mantém tanto na dimensão mais íntima quanto na pública: a preocupação em criar algo capaz de mudar o olhar e tocar as pessoas. Ricardo Carvão Levy, neste aspecto, tem feito história.


Obras em destaque:

. A primeira exposição de Ricardo Carvão Levy no Palácio das Artes, em 1979, já foi consagrada por Celma Alvim, à época crítica de arte do Jornal "Estado de Minas", como a melhor do ano.

. Em 1984, uma escultura de Ricardo Carvão Levy, feita em cobre amarelo, foi reproduzida em ouro maciço pela joalheria Manoel Bernardes para que fosse entregue como prêmio ao "Homem Minas". O homenageado foi Tancredo Neves, que recebeu o troféu em solenidade no Palácio das Artes.

. Em 1985, outra escultura de Ricardo Carvão Levy foi encomendada para ser confeccionada em prata e entregue como troféu a 25 jovens personalidades de destaque em vários setores da sociedade que participaram da promoção "Jovem do Momento". Sem saber que concorria, o artista foi homenageado com sua própria escultura ao ser eleito destaque no setor de artes plásticas, no evento que homenageou também Aécio Neves, Roberto Marinho, Sérgio Penna, entre outros.

. O complexo paisagístico e arquitetônico da Praça da Liberdade é uma síntese dos estilos arquitetônicos e artísticos que marcam a história de Belo Horizonte. Ricardo Carvão Levy está representado, nesse entorno, com a sua obra "Liberdade". Em 1991, o artista foi o vencedor de um concurso que buscava uma obra contemporânea para se integrar à Praça. Desde então é possível apreciar as inúmeras formas que a escultura possibilita a partir dos ângulos do olhar do visitante. A cada lugar, uma nova surpresa.

. Em 2012, Ricardo Carvão Levy recebeu o convite do Museu de Ciências Naturais de Belo Horizonte para criar e executar a escultura marco zero do roteiro científico-cultural Peter Lund. A obra encontra-se na entrada da instituição.

Principais Obras Públicas:

1) Praça do Papa, Belo Horizonte, MG, Brasil

"Monumento à Paz" - Ano 1982

24,00 x 2,48 x 1,41m - 92 toneladas


A Cúria Metropolitana e a Prefeitura de Belo Horizonte, para homenagear a visita do Papa João Paulo II à capital, decidiram instalar na Praça, aos pés da Serra do Curral, um marco. Foi realizado um concurso que, entre outros, contou com participação de artistas consagrados como Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Bruno Giorgi. O "Monumento à Paz", obra de Ricardo Carvão Levy, foi escolhido para ser instalada no espaço. Desde então, virou um dos maiores símbolos da capital.

A escultura abstrata, de 92 toneladas e 24 metros de altura, é composta de dois triângulos de vértices agudos opostos e um paralelogramo central. O triângulo, que é direcionado para o céu, simboliza a energia terrena, a fé. Já o outro triângulo que é direcionado a terra representa a energia celestial, a bênção. O paralelogramo é o elo dessas duas energias, sintetizando a paz. A cruz, ao lado, também criação do artista, segue o mesmo estilo do monumento, completa a composição.

2) Shopping Quinta Avenida, Belo Horizonte, MG, Brasil.

"Cachoeira" - Ano 1982


A empresa Santa Bárbara Engenharia convidou Ricardo Carvão para criar uma obra para integrar ao conjunto arquitetônico do Shopping Quinta Avenida. A escultura é um enorme painel que se estende sobre a parede dos três andares no vão central do shopping.

3) Aeroporto Internacional Tancredo Neves, Confins, MG, Brasil

"O Voo" - Ano 1984

1,90 x 2,00 x 0,80m


O Comitê do Aeroporto de Confins, junto a um renomado curador, encomendou obras a artistas mineiros, como Amílcar de Castro, Maria Helena Andrés, entre outros, para fazer parte do complexo. Ricardo Carvão Levy fez sua escultura, inspirada na síntese de um pássaro, com a mesma técnica utilizada na criação do "Monumento à Paz", da Praça do Papa, em BH. Em Confins, a escultura é de um aço especial, similar aos aços USI-SAC e Corten.

4) Praça Bernardino de Lima, Nova Lima, MG, Brasil

"Trindade" - Ano 1984

3,0 x 0,8 x 0,6m

As arquitetas que foram contratadas para reformar a praça central de Nova Lima, sensibilizadas com o trabalho de Ricardo Carvão Levy, o convidaram para criar uma arte para o local. Como a peça ficaria em frente à igreja matriz da cidade, o artista criou sua escultura representada por dois raios inversos unidos por três pontos, remetendo à integração da Santíssima Trindade.

5) Praça da Liberdade, Belo Horizonte - MG, Brasil

"Liberdade" - Ano 1991

2,25 x 0,75 x 0,50m


A Praça da Liberdade foi reformada e restaurada pela empresa MBR, atual Vale. Na ocasião, a mineradora abriu um concurso - que teve entre os concorrentes Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Jorge dos Anjos e outros - buscando uma escultura contemporânea, para integrar o conjunto arquitetônico da praça.

A obra de Ricardo Carvão, batizada de "Liberdade", vencedora do concurso, foi criada em aço carbono, por meio da técnica de corte, dobra e solda. Sua aparente simplicidade, dependendo do lado que se olha, apresenta-se de formas diferentes. Cada ângulo traz uma nova perspectiva.

6) Parque das Mangabeiras, Belo Horizonte, MG, Brasil

"Tubismo III", 50 esculturas - Ano 1999.


A Série "Tubismo I", composta de 14 esculturas criadas em tubos cilíndricos de aço, foi exposta na Estação Ferroviária, onde hoje se encontra o Museu de Artes e Ofícios. Posteriormente, o artista recebeu o convite do Palácio das Artes para reinaugurar os jardins internos, como novo espaço de artes plásticas, expondo a sua série "Tubismo I", acrescida de 14 obras inéditas, compondo então a série "Tubismo II".

Após seis meses de exposição, a série foi levada ao Parque das Mangabeiras para compor uma exposição de tempo indeterminado, tornando-se, por fim, "Tubismo III" devido à criação de mais 22 esculturas.

7) Praça Ibrahim Abraão, Campo Belo, MG, Brasil

"Brasil 500 anos", Série Tubismo - 2000

2,40 x 0,40m (diam.)

Para homenagear o aniversário de 500 anos do Brasil, a Prefeitura de Campo Belo encomendou uma obra de Ricardo Carvão. A escultura que marcou a efeméride encontra-se na Praça Ibrahim Abraão.

8) Praça Marcelo Góes Menicucci, Bairro Belvedere, Belo Horizonte, MG, Brasil

"Monumento do Milênio" - Ano 2001

21,0 x 1,80m


Para marcar a passagem do milênio, o escultor criou a escultura  "Monumento ao Milênio". Sua ideia foi retratar o progresso e a evolução por meio da ascensão percebida nas três seções da obra, que foi patrocinada pelas empresas Mannesmann, Irmãos Ayres e Patrimar.

9) Parque Ibirapuera - Assembleia Legislativa de São Paulo, SP, Brasil

"Sem título" - Série "Tubismo" - Ano 2003

3,00m x 0,50m


"Sem título" - Série "Fitas" - Ano 2003

0,60m x 0,80m x 0,80m

Ainda dentro das homenagens aos 500 anos do Brasil, o Governo do Estado de São Paulo convidou alguns escultores para propor obras que compusessem o acervo artístico do Palácio Nove de Julho, na Assembleia Legislativa de São Paulo, no Parque Ibirapuera. Ricardo Carvão Levy, como um dos convidados, teve trabalhos patrocinados na ocasião pela empresa Thyssen.

10) Parque da Colina - Belo Horizonte, MG, Brasil

"Monumento à Reflexão" - Ano 2004

13,0 x 2,0 x 1,30m


A convite da diretoria do Parque da Colina, Ricardo Carvão criou um monumento para a entrada do cemitério. Embora também tenha sido concebida a partir do mesmo lote de tubos quadrados, a peça se diferencia das demais que fazem parte da série "Tubismo IV". Enquanto a principal característica da série é a criação de formas inusitadas geralmente a partir de corte e/ou deslocamento de uma ou mais seções, esse monumento não teve cortes. Simplesmente a composição de sete tubos inteiros criando uma peça diferenciada.

A inspiração da obra foi um facho de luz vindo do céu para a terra e outro facho de luz indo da terra para o céu. Com isso, quatro tubos são unidos na extremidade inferior e quatro unidos na extremidade superior, sendo que os dois fachos possuem um tubo em comum.


11) Museu de Ciências Naturais, PUC, Belo Horizonte, MG, Brasil

"Monumento a Peter Lund", Série "Tubismo" - Ano 2012

3,60m


Criado e executado por Carvão, o marco zero do roteiro científico-cultural a Peter Lund é uma escultura da Série "Tubismo", feita de um tubo de 4,5m, sem retirar nem acrescentar material, utilizando a técnica de corte e dobra sem solda. A obra insinua uma carcaça de dinossauro ou uma samambaia gigante.

12) Mirante da Cidade, Mirante das Mangabeiras, Belo Horizonte, MG, Brasil

"Monumento a Visão", Série "Tubismo" - Ano 2017

13)  Hangar - Centro de Convenções da Amzônia , Belém, PA, Brasil.

Monumento à Vida - Memorial Marco da Luta Pela Vida

Série "Tubismo" - Ano 2022.

Simbolizando artérias e/ou raízes, a escultura tríptica criada pelo escultor Ricardo Carvão homenageia e exalta a vida.



Desde 1979


 "Tinha o desejo de ver minhas peças ao ar livre, em praças, parques, jardins. Que pudessem ser apreciadas por qualquer pessoa, independentemente de classe social ou nível cultural".

Ricardo Carvão Levy

"Decidi que não mais faria o estudo convencional de arquitetura e sim da escultura como alimento do espírito, acho que já vivemos em um mundo muito conturbado e mesmo procurando qualidade de vida somos bombardeados por notícias pesadas todos os dias, repletas de violência, guerra e corrupção. Então que minha obra pudesse transmitir um momento de tranquilidade e de deleite para as pessoas." 


A personalidade desse escultor ultrapassa o construtivismo. Embora seja receptivo ao conceito de realidade, traça seu próprio caminho. A base de seu poder criador é de uma profundidade emotivamente sentida, uma assimilação mística e devota do espaço onde a luz e a cor exercem uma importante função. 

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